domingo, 7 de dezembro de 2014

Celina

"...ao despontar o dia incerto,
O meu lugar verás deserto,
E em tudo o frio há de se pôr. 

Como os demais pela virtude,
Em tua vida e juventude
Quero reinar pelo pavor."

{trecho de "A Alma do Outro Mundo", 

Charles Baudelaire}


        ERA UMA NOITE limpa de verão quando avisaram que Celina acabara de morrer. A notícia rodou pesada em minha cabeça. "Celina acabara de morrer". Contaram-me que Mauro recebera muito mal a notícia, que estava raivoso e desconsolado. Soube também que Celina começara a vomitar sangue às 06h00, e que Mauro trouxera um médico. Enquanto o médico escrevia vorazmente uma receita, Celina abriu os olhos e, naquele mesmo momento, começou uma tosse violenta e morreu.
Lembro de ter ido em seu velório nessa mesma noite. O clima era abafado e a casa estava abarrotada de gente. Alguns me conheciam, mas os borrões que eram seus rostos não me diziam absolutamente nada. Uma menina pequena alisava o pelo de um gato cinzento quando cheguei ao corredor. Depois disso, de pouco me lembro, a não ser de ter visto Mauro e o pálido rosto mortiço de Celina.
Celina morta, Mauro triste... Em pensar que antigamente eu costumava observá-los viver. Foi então que percebi que nada tinha a fazer ali e me afastei.
        Nos dias seguintes ao sepultamento de Celina, conversei com Mauro algumas poucas vezes. Ele reclamava da morte dela, e eu ouvia seu lamento egoísta sem distinguir as palavras. Tive nojo de Mauro, e acima de tudo de mim mesmo. Bebi um café já frio, que me amargava a boca sem prazer.
Depois disso, viajei para um congresso e só voltei no final de semana. Durante a viagem, pensei muito em Celina. Não exatamente por sua pessoa, mas por uma quebra do hábito de vê-la. Lembrei então de Mauro e o convidei para conversarmos. Tinha a mesma cara de derrota da última vez, mas havia algo diferente em si. Um brilho forte no olhar e uma firmeza ao apertar minha mão. De alguma forma, havia algo que eu não notara antes.
Sentamos num lugar ao fundo do cabaré. Cabaré este, que já fora o trabalho de Celina.
Os copos dançavam sobre nossa mesa, e reconheci ter sido muito mau amigo para Mauro durante esse período de luto. Resignei-me a escutá-lo, embora rapidamente tenha me distraído. Não lembro de tudo o que disse, pois, na verdade, acho que era sempre a mesma coisa.
Em certa hora, cravou o indicador no peito num ato débil e repetitivo, dizendo "Tenho-a aqui! Bem aqui! O senhor me entende, não é, Doutor Marcelo?"
Dizia que queria esquecer, se embriagar, conhecer outras mulheres e qualquer coisa assim. Bebeu seu trago de um único gole, e quando dei por mim, ele estava agarrado à uma mulher alta e esguia. Notei que ela em nada se parecia com Celina e pensei com meus botões se ele também teria notado.

        A MÚSICA DO CABARÉ era pegajosa e arrastada, entrando em meus ouvidos como a sensual voz de uma mulher. Percebi que tudo lá era Celina. As vozes, o rosto das mulheres, a música e as luzes. A presença quase insuportável dela. Fora feita para aquele lugar, nascida toda para a farra. Era ao cabaré que pertencia. Ter acompanhado Mauro fora um erro, e ela lhe comprava com doses de mate doce no pátio de casa, para que, às vezes, ele lhe levasse à uma festa.

Mauro voltara à mesa na mesma hora que a cantora anunciava uma música que Celina sempre cantarolava para ele na volta dos bailes. Olhou-me tenso, e entendi que de nada havia se esquecido. A mulher perguntou-lhe algo ao pé do ouvido, e Mauro respondeu-lhe secamente, sem nem olhar para ela.
Nos encontramos no abismo, e a mulher isolada e humilhada disfarçava bebendo um gole de bebida qualquer.
Olhávamos os casais a dançar e por entre os pares vi Celina. Ela dançava sem nos ver, sorridente e leve como sempre fora. Teria sido sempre assim se Mauro não a tivesse tirado de lá.

        Vi Mauro tremer e levantar-se, num súbito. Tinha os olhos mareados e um sorriso no rosto. Senti-me tonto enquanto o via partir. Num piscar de olhos, uma neblina tomou conta da minha mente e senti a saliva em minha garganta se transformar em algo amargo e viscoso. Aos poucos, o cabaré foi escurecendo aos meus olhos. Neste momento, ela tocou minha mão.
Parecia mais bonita, serena e jovem do que jamais fora. Ainda surpreso, perguntei o que fazia ali, já que não esperava vê-la tão cedo no mundo dos vivos. Calmamente, ela plantou um sorriso leve nos lábios, mas o deixou morrer em seguida.


"Mundo dos vivos? Eu jamais iria para lá, Celo. Eu não quero voltar."

        Demorei a entender o que Celina queria me dizer. Até que me dei conta de que Mauro sempre sentira ciúmes, achando que ela poderia tentar me seduzir a qualquer momento. Então, vendo que lamentava sua morte tanto quanto ele, envenenou minha bebida. E eu bebi muito nessa noite.
Ela roçou levemente os dedos nos meus, deixando um perfume doce e a sua ausência. 


        Mauro sequer deve ter notado que, tentando separar-me de Celina, havia me enviado justamente para ser sua eterna companhia. 


slevinaaron.deviantart.com
O conto "Celina" é uma adaptação de "As Portas do Céu", de Julio Cortázar. Foi escrito por mim, em parceria com Jéssica Demarchi, tendo sua adaptação para roteiro de um curta de mesmo nome. O curta foi realizado como trabalho para a disciplina de Cinema e Montagem, e estará em breve disponível na internet. A imagem do topo do post foi encontrada neste Tumblr.

9 comentários:

  1. eu necessito ver esse curta!

    amei a historia! voce escreve bem deeemais! super envolvente!


    beeeijos
    www.klaryan.com

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  2. Gostei muito do texto, vou querer ver o curta assim que estiver disponível ^^
    Beijos

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  3. Eu preciso ver esse curta pra ontem, menina! Que conto fantástico *w* Adorei o clima e o enredo, e o desfecho me pegou bem de surpresa mesmo - quer dizer, já havia pressentido algum elo entre Celina e o narrador, mas uau! Acho muito digno que vocês ahazem nessa matéria, porque ficou excelente, de verdade!

    Aproveitando o momento pra responder seu comentário, fico feliz em descobrir mais alguém que ainda vê amor nos cartões escritos à mão ♥ Acredita que ouvi numa loja que "como hoje as pessoas mandam cartão virtual", é muito difícil vender os cartões de papel? Fiquei chateadíssima, mas de fato, achei verídico D:
    Sobre layouts temáticos, toca aqui que eu também adoro! o/ E espero que suas férias já tenham chegado, e que você tenha o merecido descanso <3
    Fico feliz que tenha gostado do meu último comentário! xD

    Beijo! ♥

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  4. Olha só, vc vai postar esse curta AGORA nesse blog, pelo amor de Deus kkk

    O conto ficou sensacional. O toque perfeito de romantismo, sem parecer exagerado, e o talento (porque isso não é uma coisa fácil) de soltar as informações aos poucos ao longo do texto provando seu jeito pra escrita.
    Amei o final, foi tão lindo e inesperado. Me apaixonei por Celina também. <3

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  5. Nossa, amiga! Vc samba na cara da sociedade de salto 15. Está perfeito o conto, digno de livro. Cadê esse curta? HAHAHA aloka já. Baudelaire é maravilhoso, já no início dá aquela arrepiada. Ficou maravilhoso, sério. Sou sua fã eterna e vc sabe.
    Beijos, deusa.
    http://www.canseidesernerd.com

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  6. Nossa que Trama !!
    Quando esse curta vai ser publicado?

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  7. Vim aqui seca pra ler mais e ainda nao tem post novo hahahahaha
    sem querer cobrar, mas ja cobrando: escreve maaaais, vaai?

    beeeijos e feliz 2015!
    www.klaryan.com

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  8. Que conto ótimo, cade o curta pra gente ver, já saiu?
    Sempre ótimos textos por aqui, Larissa!

    Feliz 2015 pra você.
    Bjo

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  9. Queria comentar esse conto já tinha um tempo, eu vim ler outro dia e achei incrível! Mas como eu tava pelo celular não dava pra fazer um comentário decente. Enfim, o fato é que

    QUE CONTO MARAVILHOSO!

    Espero imensamente que tenha o curta logo pra todo o universo apreciar <3

    P.S.: ainda estou com raivinha do Mauro :c

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Obrigada pelo comentário, espero que tenha gostado da postagem e volte sempre! :)