"...Perderíamos preciosos valores de aceitação da vida num mundo uniforme, monótono e homogêneo; mais do que isso: tal mundo sem diferença não podia, por nenhum rasgo de imaginação, evoluir a partir do modo pelo qual as nossas vidas são modeladas e conduzidas." (BAUMAN, 1998, p. 43)
Segundo Bauman, cada sociedade cria seu próprio tipo de estranhos. Esses estranhos, são pessoas que não se encaixam no mapa cognitivo, moral e estético da sociedade. Assim como os cria, esta sociedade tenta anular esses estranhos.
Baseado em Lévi-Strauss, Bauman expõe as duas formas que estas sociedades comumente usam para aniquilar seus estranhos:
Primeiro de forma antropofágica, devorando-os. Essa forma utiliza da assimilação, onde proíbe tradições, abafa distinções culturais e lingüísticas e torna as diferenças semelhantes. O estranho é convertido para o padrão socialmente aceito. Caso a antropofagia dos estranhos não funcione, a sociedade utiliza-se da forma antropoêmica, vomitando os estranhos para fora dos limites da ordem social, banindo-os e excluindo-os em guetos, asilos, manicômios e presídios. Em caso de falha, a sociedade destrói fisicamente os estranhos.
O estranho na sociedade deve ser uma presença temporária. Ele deve ser "libertado" de seus defeitos, mutilado culturalmente e corrigido fisicamente. A sociedade deve ser purificada de sua "sujeira", ou, seus "estranhos". A pós-modernidade busca por ordem, harmonia e pureza, e nesta sociedade não há lugar para os estranhos e suas esquisitices. Eles "estragam o quadro", ofendem o senso esteticamente agradável e moralmente tranquilizador do coletivo. São os consumidores falhos e os novos impuros.
Mais do que uma fraca introdução ao texto de Bauman em O Mal-Estar da Pós-Modernidade, procuro com este post divagar mais acerca dos estranhos do nosso mundo pós-moderno. Mas, por hoje, por conta de um trabalho que realizei para a faculdade, vou focar num tipo de Estranho muito contemporâneo: o melancólico.
Para dar uma breve introdução ao que me levou a pensar neste post, explico o exercício criativo que realizamos na disciplina de Elaboração de Texto em Arte: nos foi solicitado escrever um parágrafo (o que viesse à mente) e repassar a folha a um colega, onde este continuaria o texto com mais um parágrafo, e assim por diante até que fosse finalizado. Durante o processo, escrevi em algumas folhas do mesmo modo que aqui escrevo. Este é meu tom, é assim que eu funciono. E não fiquei surpresa quando notei que a minha visão das coisas foi distorcida e posta de forma agradável no próximo parágrafo, por algum colega. Em todos os textos, fui extremamente realista e crítica, enquanto (não digo que é errado) a maioria dos colegas mostrou ser positiva e até sonhadora quanto ao texto e a realidade das coisas. Pois bem. Em determinados casos, achei um pouco de falta de respeito ao meu texto, já que deveríamos continuar a linha de raciocínio do colega anterior, para fazermos um texto juntos, e não parágrafos que destoassem uns dos outros.
Minha visão das coisas foi transformada pelo modo antropofágico de anulação de estranhos. De alguma forma, a estranha era eu, e o que eu disse deveria ser corrigido, reescrito e transportado a outro lugar qualquer. Meu pensamento foi violado, catalogado, avaliado e encaixotado. Deveria eu pensar quadrado também?
E o interessante é que, talvez, as pessoas que continuaram o texto de onde parei, nem tenham percebido isso, pois o pensamento socialmente aceito (ou seja, o positivo ao extremo) já foi automatizado.
Já é comum na nossa ditadura de felicidade excluir quem não participa da grande utopia. Há uma enorme pressão social para que as pessoas sejam (e principalmente pareçam) felizes, que sorriam apesar/acima de tudo, que estejam sempre com energia, bem dispostas, alegres e bem humoradas. As pessoas tornam-se máquinas fúteis, programadas para fazer o que delas é esperado. As olheiras são corrigidas com maquiagem, os problemas são disfarçados com risos sonoros e tudo é sempre lindo e maravilhoso. A verdadeira felicidade é afogada num grande mar de atuação. Quem não quer ser excluído deve dobrar os joelhos.
Ainda há esperança nos sinceros e corajosos. Nos que não se dobram e aproveitam, sim, a felicidade de todos os dias. Não há outra resposta além da permanência. Não há outra verdade além de manter-se firme, de aguentar, de estar, e principalmente de ser. Já dizia Nietzsche: "Torna-te quem tu és" e principalmente: tenha coragem de ser quem tu és.
Não seja também um robô da grande utopia. Pessoas de verdade nem sempre estão felizes. É "ok" não estar feliz o tempo todo e não achar tudo incrível, agradável e bonito.
A tristeza, nos dias de hoje, também é forma de protesto.
Bauman, Z. O mal-estar da Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.





Amiga, AMEI o texto. 99% do tempo me sinto igual a você. Fingem que não estou reclamando ou criticando, pra se sentirem melhores. Na verdade eu acho que eles devem ter mais motivo pra reclamar do que a gente (se eu fosse uma ameba sem cérebro eu ficaria muito chateada), mas escolhem parecerem saudáveis, lindos, felizes e ricos, pois como você falou brilhantemente, estão automatizados, nem é culpa deles. Sinceramente nem dá pra ter raiva, só pena. Acho que os ~~estranhos da atualidade, são gente que tem sua própria luz, pessoas que se bastam e sabem viver com sua autoanálise, nem sempre agradável, mas realista. Acho que devemos parar de reclamar e agradecer, afinal. Deus nos livre de fazermos parte desse rebanho acometido pela idiotice coletiva.
ResponderExcluirAdorei o texto, vc arrasa.
Me identifiquei muito com o seu texto, muitas vezes já fui criticada porque me consideraram "pessimista" demais, mas acredito que eu seja realista mesmo.
ResponderExcluirO começo do texto me lembrou um pouco a teoria Freudiana, com aquela ideia de que o ser humano não pode expressar seu instinto sexual livremente e, por esse fato, ele sublima esses impulsos, transformando-os em "práticas socialmente aceitas", tipo arte, música, ciência e etc. O mais interessante é que só é possível construir a sociedade porque a sublimação permite ao homem empregar essa energia por outras vias, ou seja: se não houvesse repressão da sociedade, não haveria sociedade. Maluco, né? o_o
ResponderExcluirEu odiaria fazer uma atividade como essa que você citou, provavelmente por já esperar algo desse tipo: enquanto você está ali, se empregando no seu texto (no sentido de colocar a si mesmo em palavras, mesmo!), vem um alguém e pá. Estraga. Simples assim. Mas voltando à questão social, faz muito sentido pra mim a ideia que você está trazendo, principalmente porque discutimos muito na faculdade: os preconceitos, as normas, as regras, as imposições, as "ditaduras" já foram internalizadas pela gente, sem pedir nem autorização - você é criado num meio que te faz repetir os mesmos valores e ideias antes mesmo que você tenha capacidade neurológica de entender todas essas coisas. Simplificando: você usa macacão cor-de-rosa antes mesmo de saber distinguir cores. Você tem bonequinhas e enfeites de babados antes mesmo de saber pra que serve aquela coisinha que tem no meio das pernas. E concordo contigo quando diz que as pessoas não nos enquadram nesses padrões de forma intencional, porque eles já estão lá, pra serem seguidos, repetidos e ensinados, de novo e de novo.
Sobre a tristeza, o que mais vem na minha cabeça é a medicalização da vida. Tá cansado? Olha aqui um energético. Tá com cólica? Remedinho aqui, ó. Tá sem sono? Olha esse relaxante. Tá infeliz? Ritalina! Tudo tem uma fórmula/pílula mágica pra resolver, e as pessoas cada vez mais recorrem a esses meios porque pensar, refletir, "curtir" a tristeza é muito trampo, não é? Assisti uma palestra sobre morte e luto, e concluímos que hoje em dia as pessoas não têm mais o direito de sofrer, chorar, ou mesmo sentir a dor da perda (eu me lembro de um exemplo sofrido que a palestrante nos deu, de uma senhorinha que teve a casa soterrada em época de chuvas e estava chorando por ter perdido as suas fotos. As pessoas a criticavam muito porque "tinha que agradecer que estava viva", mas poxa, e o que todas aquelas fotos significam pra ela?).
Enfim, eu adorei esse post, eu eu gostaria de ler mais coisas assim - sem ter de ser no âmbito da universidade, sabe? No fundo é uma merda lermos esses autores uau e percebermos que escreveram isso tudo há mais de 50 anos e estamos discutindo as mesmas questões. Mas enfim, é a vida.
Por fim, agradeço de coração seu comentário lá no blog, ainda mais por comentar num desabafo daquele naipe 8D'' Estou seguindo seu conselho, e ainda mais depois desse seu post/meu comentário, acho que o nosso negócio é aguentar firme e esperar mesmo. Dias bons virão, e que saibamos reconhecê-los \o/
Um beijo!
Shana { Hishoku no Sora }
Gente que post maaais perfeito! Bom, nao da pra discordar do Lévi-Strauss e do Bauman ne hahahaha
ResponderExcluirEssa atividade que vc foi deve ter sido incrível, é chato ver as pessoas distorcendo nossos textos, no falecido orku eu ja participei de varios "continue a historia" e a tendencia era seeempre essa, vc colocava algo e a pessoa ia la e distorcia, pq o final SEMPRE tinha q ser feliz e perfeito...
as pessoas fazem isso, romantizam um mundo que nem sequer elas vivem, mas acreditam viver...
as vezes é bom, mas mergulhar nisso eu nao acho bom nao... continue se destoando da multidão... afinal de conta quem é igual nao se destaca!
beeeijo
http://www.klaryan.com
VOCÊ ESCREVE MUITO BEM, VAI SE CATAR.
ResponderExcluirSabe, amiga, eu também me sinto assim quando observo o mundo a minha volta. Acho que no caso eu não chego a ser uma estranha melancólica, mas uma pessoa bem crítica com relação ao meu mundo. E eu estou fazendo um curso onde, curiosamente, as pessoas são treinadas para NÃO SEREM críticas. Os professores nos chamam de futuros 'operadores do direito', mas eu não quero ser operadora, eu quero ser INTERVENTORA. E um dia eu fui falar isso num seminário de sociologia jurídica e o professor quase me bateu. As pessoas, na minha turma especificamente, tendem a achar que não devemos lutar por um mundo melhor, e sim aceitar o mundo como está e seguir em frente. Eu não aceito isso. E sou tida como a maluca retardada pseudo-revolucionária. Impõem isso de uma forma que eu me sinto sufocada. Parece que a gente sempre é muito "pessimista" e errada, mas acho que a sociedade é que está cega e feliz demais, sinceramente...
Te indiquei pra uma tag bobinha lá no meu blog. Beijo!!
Eu já fui mais revolts com o mundo, e hoje sinto que me deixei encaixar em um padrão. Muito porque que não aguentei a pressão de ser sempre a diferente, a crítica, a que sempre vê o lado ruim. Até hoje tenho minhas opiniões mas muitas vezes eu guardo, porque geralmente não entendem ou a maioria vai contra mim e eu não tenho paciência em discutir por muito tempo. a sociedade vai nos coagindo, aos poucos e a gente vai, também aos poucos, acatando.
ResponderExcluirEu sempre tento externalizar o meu lado mais realista, por vezes ele é bem pessimista mesmo e paciência. Isso que você citou sobre a sociedade mesmo criar e depois condenar os estranhos é a mais pura verdade. Na adolescência era porque eu vestia preto, na faculdade era porque eu estudava, hoje é porque eu prefiro ler a sair para a balada. As estranhesas mudam junto com a gente.
ResponderExcluirHoje eu trabalho em um lugar onde as pessoas são todas estranhas entre si, o que é legal. O que não é legal é ver como as ideias são conflitantes até mesmo entre os estranhos, porque são estranhos diferentes. Nem mesmo os estranhos se respeitam entre si.
Eu fiz uma vez esse mesmo exercício que você citou e tive a mesma impressão. A pessoa não segue a linha de raciocínio da anterior, ela impõe a sua própria opinião e anula/concerta a que está exposta antes.
Já entrei em muitas discussões sobre os mais diversos assuntos por causa disso, dessa sobreposição de opinião. Hoje não entro mais. Eu me conheço e me respeito, e pra mim é isso que importa.O que os outros gostariam de me impor já é outra história, e eu não intendo em lê-la.
Ótimo texto e explanação, como sempre ;)
Acho que a tristeza está na "moda". Procurei uma palavra que não soasse pejorativa para substituir esse terrível "na moda", mas não encontrei.
ResponderExcluirNo mundo "externo" a utopia da felicidade é vendida e comprada sem parar, mas jovens tristes e melancólicos transbordam cada vez mais em plataformas como o tumblr.
Ser triste é um protesto, sim, mas pra ser sincera, acho que a nossa geração vai quebrar um pouco a utopia. Ser adolescente sempre foi muito difícil, mas nenhuma geração gritou isso tão alto quando a atual. O que é essa febre de "se cortar" se não um protesto? Um doloroso, mas real, protesto.
Acho que os estranhos da vez são os sinceros. E com isso eu me identifico. Você não é estranha por ser melancólica, Larissa. Você é estranha por não ter medo disso.
Post absolutamente genial. <3
Um texto desses dispensa comentários. Muito bom, mesmo.
ResponderExcluirAcho que entendo um pouco como é quando os outros tentam desfazer o que você fez porque não sabe no mundinho deles, mas a verdade é que, além de tudo, eu também não me importo. Nunca me encaixei em nada, nem mesmo entre os esquisitos, e agora também já nem sei mais se quero.
Beijinhos ;*
Phantasmagorik