sábado, 10 de janeiro de 2015

Lento ma non troppo



A música dolente é Melodia, da ópera Orfeu e Eurídice, de Christoph W. Gluck, interpretada por Nelson Freire. E é assim que começa Santiago (2007), documentário de João Moreira Salles.
As fotografias são da Casa da Gávea, onde ele morou durante boa parte de sua vida, e são introduzidas como memórias de sua infância com Santiago Badariotti Merlo, o mordomo que trabalhou com sua família durante trinta anos. Em 1992, foram feitas as primeiras entrevistas com Santiago, que estava aposentado e morava sozinho em um apartamento.
Na primeira tomada, conhecemos Santiago, primeiro através de sua voz e marcante sotaque, e somente depois seu rosto. Durante as entrevistas, ele é mostrado a distância, quase sempre atrás de maçanetas, cortinas, paredes e outros elementos cênicos. Esses elementos são obstáculos metafóricos entre documentarista e personagem. Percebemos então, que por mais que Santiago fosse o personagem principal do filme, ele ainda é o mordomo e João Moreira Salles o dono da casa. A direção das entrevistas é fria, deixando transparecer um Santiago sempre deslocado, fora de lugar. Este ponto foi percebido pelo documentarista na montagem final, treze anos após as filmagens e muitos anos depois do falecimento de Santiago.

"...e no fim, quando Santiago tentou me falar do que lhe era mais íntimo, eu não liguei a câmera.”

A tirania de João Moreira Salles ao fazer Santiago repetir inúmeras vezes a mesma frase, por exemplo, é reconhecida por ele em uma narrativa em off, lida por Fernando, seu irmão. Em busca da tomada perfeita, a realidade é fabricada. Durante todo o filme ele nos fala disso, sobre o fazer documental, a suspensão da ilusão e se o filme não-ficcional é realmente isento de qualquer tipo de interferência do diretor. Em dado momento, nos mostra folhas caindo em uma piscina, que tem a água agitada. Provocativo, pergunta se as folhas caiam assim mesmo e se as pequenas ondulações na água não teriam sido feitas por uma mão fora de cena. Com estas observações, o filme também passa a ser uma reflexão sobre o material bruto que ele havia produzido em 1992, revisitado mais de uma década depois.

Ainda assim, consegue mostrar com maestria como Santiago era especial. Moreira Salles cita um momento de sua infância, quando os pais saíram para jantar e disseram a Santiago que podia fechar a casa e se recolher. Ele lembra de acordar-se com o som de música vindo da sala, e se depara com o mordomo vestido de fraque tocando Beethoven. Não lhe era estranho Santiago ao piano, mas não entendera o fraque. Quando lhe foi questionado o motivo de estar vestido assim, Santiago apenas responde: "Porque é Beethoven, meu filho."
Culto, poliglota, de sensibilidade ímpar e personalidade cativante, o que fica de Santiago são suas danças com as mãos, as castanholas, memórias e narrativas cheias de emoção, além das cerca de trinta mil páginas sobre a nobreza mundial, deixadas por ele em testamento para João. Tinha amores e ódios com seus personagens, que viveram novamente através dele, assim como ele também vive embalsamado pelo filme.
Sua solidão é visivelmente devastadora nas esperas e tempos mortos das imagens. É ali, parado e sem dizer absolutamente nada, que Santiago nos diz tudo o que há para ser dito.



Santiago é um filme belíssimo e diversas vezes premiado, que hoje faz parte do acervo do MoMA. No link abaixo, você pode conferir na íntegra:







Santiago (Brasil, 2007, 79 min.)
Diretor: João Moreira Salles
Produção: Maurício Andrade Ramos
Entrevistas: João Moreira Salles, Márcia Ramalho
Diretor de produção: Beto Bruno
Diretor de fotografia: Walter Carvalho
Som: Jorge Saldanha
Edição: Eduardo Escorel, Lívia Serpa
Coordenação de produção: Raquel Zangrandi



10 comentários:

  1. Acho que mais do que o filme, achei fantástica essa reflexão sobre ele, e de cara já comecei a pensar em muitas coisas, filmes e afins, em reflexões sobre todo o que é 'naturalmente' produzido na nossa sociedade. Não tem muita relação, mas e aquela expressão "maquiagem natural"? hahaha!
    Ótimo texto ♥ e vou dar uma olhadinha no filme assim que a vida me permitir - o que espero, não demore muito çwç
    Beijo!

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  2. Me interessei pelo filme, vou dar uma olhada, com certeza!
    Beijos

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  3. Adoro esse filmes emocionantes sobre pessoas fortes, acho que acabam ajudando a gente a tocar a vida pra frente e ver as coisas de forma mais positiva.
    Acho que nunca tinha ouvido nesse filme, vou por na lista pra assistir :D
    (tenho visto poucos filmes ultimamente)

    Beijoo

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  4. Ai Larissa, esse teu blog É UMA OBRA DE ARTE! Não conhecia esse filme, mas comecei a assistir aqui depois de ler seu post e: estou fascinada. É o tipo de filme que desfaz aquela ideia boba que as pessoas geralmente têm de que documentário é uma parada chata, como se fosse só um amontoado de imagens pra contar uma história não-ficcional. E na boa? Desde que eu assisti aos documentários do Michael Moore, por exemplo, parei de achar isso HAHAHA (porque eu era dessas pessoas, falomesmo)

    Beijo, gata! <3

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  5. Eu adoro comentário sobre a vida das pessoas, mesmo que eu não saiba quem é a pessoa (como nesse caso), mas me interesso e acho que traz umas reflexões boas sobre nossa própria vida. Já dei uma chorada de inveja literária do seu post, que tá lindamente impecável como sempre. Você é uma bicha destruidora mesmo. Te odeio.

    http://www.canseidesernerd.com/

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  6. Eu amo o estilo dos documentário,e o Brasil produz muito material competente no gênero, o que infelizmente é ignorado pela maioria do povo, que só quer saber de comédias-globofilmes (porque eu to fazendo cinema mesmo?)
    Enfim, seu post me tocou de várias formas, talvez por eu ser uma "profissional da área" (ainda não, mas chego lá), ou porque histórias reais mexem comigo.
    Confesso que só vi 10min do filme - é grande demais e eu estou sem tempo, mas tenha certeza de que salvei o link pra mais tarde. <3

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  7. Tenho que confessar que sou bastante noob nesse tipo de filme. Assisto documentários, mas praticamente são sobre arquitetos e suas arquiteturas. Mas enquanto lia seu texto, fiquei montando imagens na minha cabeça, principalmente sobre a parte em que você comenta sobre o número de vezes em que o cineasta fez Santiago repetir suas falas. É uma coisa meio doida de se pensar, dirigir um documentário - que, pelo o que entendi, é pra ser o mais próximo da realidade possível, sem amarras - de forma tão restrita.
    Um beijo!

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  8. Adorei a resenha! Salvei aqui para assistir. Normalmente não sou fã de documentários e nesse estilo de filmes sou bem novato, digamos assim. Não entendo muito... Quando vou em museus, nem sempre paro para assistir os filmes. Prefiro observar as exposições. :x talvez por não terem legendas e eu não conseguir compreendê-los bem sem elas. :/

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  9. Oi de novo! Passando pra dizer que te indiquei para uma tag http://bluebellbee.blogspot.com.br/2015/02/tag-liebster-award-2.html
    Beijos

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  10. GENTE, NECESSITO VER ESSE DOC! Eu gosto de coisas assim, que mostram pessoas pra pessoas! <3 Tem uma super importancia na minha vida!
    Seu blog é uma caixinha de surpresas, só tem coisa boa! :)

    beeeijos

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Obrigada pelo comentário, espero que tenha gostado da postagem e volte sempre! :)