sábado, 6 de julho de 2013

Kuolema

tearsofemerald.deviantart.com
Já não se encantarão os meus olhos nos teus olhos, já não se adoçará junto a ti a minha dor.
Mas para onde vá levarei o teu olhar e para onde caminhes levarás a minha dor. 
Fui teu, foste minha,
O que mais?

 — Farewell, Pablo Neruda (1923)




     Sem muito ânimo, caminhei por entre as ruelas e corredores do cemitério municipal. Com a câmera em mãos, eu fotografava poucas obras que realmente me chamavam a atenção. Estátuas frias de anjos e santas, feitas de ferro fundido ou granito, algumas tão sujas e quebradas que era impossível identificar o que outrora foram, que dirá o artista responsável.
     Fotografava para um trabalho de faculdade, um estudo fotográfico sobre arte tumular, que fiz sozinha em um dia diferente do resto da turma. Duas amigas me acompanharam na visita ao cemitério, porém andávamos separadas. Era uma tarde preguiçosa, de temperatura agradável e um sol discreto, que derramava uma luz dourada fria sobre os objetos. Quase não haviam pessoas no cemitério. Era um local de silêncio e ausência.
     De vez em quando alguém cruzava meu campo de visão, carregando flores nas mãos e lembranças, geralmente pessoas idosas.
     Continuei a minha lenta e apática documentação do estatuário, quando de repente, ouvi uma voz atrás de mim. Era um senhor de idade, que me perguntou se eu fazia parte da RBS (a tv local). Educadamente, respondi que não, com um certo receio de que o idoso me repreendesse por estar fotografando o cemitério, me dizendo que era falta de respeito ou algo assim. Porém, o senhorzinho deu um sorriso tímido e me perguntou se eu queria fotografar o jazigo da esposa dele. Respondi que sim e o acompanhei até o local onde dormia sua esposa.
     Era um túmulo simples, com poucos adornos artísticos, porém com flores frescas e muitas bonecas, arrumadas com capricho e carinho. Perguntei a origem das bonecas e ele me respondeu que sua esposa gostava muito das pequenas bonequinhas de pano, então ele comprara para ela. Senti um aperto na garganta ao me emocionar com a história do velhinho. Me dissera que era dia dos namorados e ele sempre visitava sua adorada para trazer-lhe flores. Sua esposa morrera de câncer há muitos anos, mas ele não passava um ano sequer sem visitá-la naquela data e trazer-lhe presentes. Sua história me fez pensar sobre minha própria vida, e sobre a vida de modo geral. Sobre amor, principalmente.
     Me despedi do senhor, que seguiu seu rumo em uma modesta bicicleta, e segui o meu de volta para casa, para concluir o trabalho.
Se recebi nota pelo trabalho com as fotos? Não tem importância. Recebi sim, uma grande história para contar sobre vida. Sobre vida, jamais sobre morte.

Esse conto é verídico e foi baseado em um relato de uma amiga minha, que cursa Artes Visuais comigo. Desconheço o nome do idoso que conversou com Jéssica e já não recordo o nome de sua esposa. Mas acredito que sempre lembraremos desse dia, desse senhor e dessa história.

NERUDA, Pablo. Crepusculário. L&PM, 2004. 176 p.

17 comentários:

  1. Que lindo!
    Imagina o amor e a saudade que esse senhor deve sentir. Isso é amor verdadeiro. Coitado dele. :\ Muito linda essa história e muito bem coitada.
    Parabéns, bee.
    Beijos.

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  2. Adoro idosos! Eles têm muitas coisas boas para contar e poucas pessoas para ouvi-los. Muito fofo da parte dele pedir para fotografar o túmulo da esposa, mesmo sabendo que era simples, mas ainda sim muito especial.

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  3. Lariii, ficou maravilhoso isso! Quando a Jéssica nos contou eu já tinha ficado bastante emocionada, mas com o modo que tu colocou as coisas aqui ficou mais lindo ainda... Tua escrita é muito poética e reflexiva, perfeita pra esse tipo de texto do coração assim *-*
    Adorei, adorei, adorei! DIVA

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  4. Adorei o jeito como tu contou o fato, ainda mais por eu ser a menina que estava fotografando.. nunca vou me esquecer dele e do modo carinhoso como ele falava da esposa, que se chamava Vani.
    Jéssica

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  5. Que triste! Quase chorei. Muita gente vive a vida sem importar em dar amor e agradar enquanto em vida. E esse senhorzinho, até na morte da esposa se preocupava em fazê-la feliz. Aliás, gosto de pensar que a morte nada mais é que uma passagem. Me sentiria feita de palhaça se chegasse do outro lado e não estivesse ninguém que eu amo por lá. Mas tenho certeza de que o amor é forte demais pra se basear só nos aspectos físicos, sei que ele transcende e está muito ligado à espiritualidade.

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  6. Nossa, Larissa, que linda e triste essa história do senhor no cemitério. Minha mãe veio saber o que era e li seu post, ela também se emocionou. Esse tipo de relato também me faz pensar sobre a vida e sobre o amor, e sei lá... É muito preocupante eu torcer pra ter um amor que vai ultrapassar a barreira da morte? Não no sentido espiritual, digamos, da coisa toda (até porque eu não acredito nisso), mas de estar viva e amar alguém ainda tanto tempo depois [?]. Histórias assim sempre vão fazer eu pensar nisso...
    E você escreve muito bem, como sempre! Adoro ler seu blog!
    Beijo! :*

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  7. E eu me emocionei aqui, lendo. Essas pequenas histórias de vida nos fazem pensar mesmo. Na extensão do amor, no descanso daqueles que foram e na saudade daqueles que partiram. É bonito, triste. É agridoce, né?
    Lindo seu texto! <3

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  8. Quantas histórias escondidas em cemitérios né? A história desse senhor só vem mostrar o quanto o amor verdadeiro é eterno. Muito bonito. Beijos!

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  9. Algumas experiências são mais importantes que notas... Beijos

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  10. Lindo, lindo! =)
    Lembranças sempre me emocionam. Ausências também.
    Queria conseguir colocá-las em palavras.
    Beijos!!

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  11. Juro que fiquei emocionada. Histórias de amor verdadeiro são lindas demais e impossíveis de se ignorar. Me deu uma melancolia por não ter conhecido esse velhinho também...

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  12. Esse relato me deixou emocionada, arrepiada. Não só pelo final surpreendente, ou pelo grande ensinamento que este passa, mas também por sua descrição, tão fiel e lírica, que quase me transportou para cena. Você escreve muito bem, parabéns.

    Beijos =*

    http://alacazaam.blogspot.com.br/

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  13. Pensando no quanto sou boba por ficar com olhos cheios d'água lendo essa história, pela segunda vez, e a reação ainda é a mesma. A gente está tão acostumada a pensar que o mundo é um lugar tão cinza e cruel, que é difícil não se emocionar com esses respingos de cor tão bonitos que às vezes a gente encontra.
    Gosto muito de cemitérios, e eu sempre imagino as histórias daquelas pessoas, e das pessoas que as visitam... Já tive algumas surpresas bonitas, alguns sorrisos trocados, olhares que buscam conforto, e aquele calorzinho no coração que a gente sempre lembra depois.
    E, vamos elogiar, porque você merece: amo o jeito que escreve. E pronto.

    Beijo.

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  14. Achei essa frase tão sensível: "o acompanhei até o local onde dormia sua esposa". Não sei porque.
    Isso me comoveu muito, nunca tive perdas significativas e não posso imaginar a dor. Mas sei que dói. Tenho compaixão.
    Adorei esse post.

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  15. Faz bastante tempo que não visito túmulo de nenhum parente. Meus pai que o fazem. A história do velhinho me comoveu. Se nesse tempo todo ele continua visitando o jázigo de sua amada, significa que ele não casou. {Emilie Escreve}

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  16. É tudo o amor. Queria poder agradecê-lo por existir e por nos agraciar com histórias como essa, que quase me fizeram transbordar.
    Que lindo, moça. L-I-N-D-O! ;*

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  17. Ler isto fez meu coração doer tanto. É algo que acontecerá com todos nós, com ou sem uma história bonita ou lição. Mas também é um conforto saber que através de uma história, o amor existe e fica. Difícil opinar, mas é lindo e eu fiquei curiosa em ver esta foto. O maior desejo dele deve ser encontrá-la novamente.

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Obrigada pelo comentário, espero que tenha gostado da postagem e volte sempre! :)