domingo, 9 de março de 2014

Das Unheimlich

No artigo "Das Unheimliche", Freud procura delimitar os vários significados que a palavra heimlich adquire no alemão, entre os quais está familiar, íntimo, lugar livre da influência de fantasmas, algo oculto e perigoso, afastado do conhecimento, assustador. Freud propõe que "heimlich é uma palavra cujo significado se desenvolve na direção da ambivalência, até que coincide com seu oposto unheimlich".
"Unheimlich" é um termo usado com frequência para descrever o incomum, inusual ou estranho. Porém, o sentido da palavra vai além do nosso conhecimento e alcance, ultrapassa o sobrenatural e o fantástico. Esse estranhamente familiar (também conhecido como 'The Uncanny') na arte carrega consigo o irrepresentável, o que se aproxima do sublime. Não é belo ou feio, é o inquietante. A sensação de irrealidade, como se o que antes era só imaginário se desnudasse à nossa frente.
No texto de Vidler, o "estranhamente familiar" provoca sensações assustadoras, a idéia de duplo, o medo à mutilação do corpo em fragmentos. O Unheimlich é portanto o lado horripilante do sublime, o medo de ser privado da integridade do corpo e outros horrores. Freud afirma que o “Unheimlich/Uncanny” não deriva seu terror de alguma coisa externa, estranha ou desconhecida, mas, pelo contrário, de algo estranhamente familiar e íntimo (e não por repetição), que tentamos afastar de nós, mas que resiste aos nossos esforços.

Enfim, depois de toda essa explicação (tentei encurtar e deixar o mais claro possível) apresento-lhes o meu projeto fotográfico DAS UNHEIMLICH, que foi fundamentado principalmente no conceito de heimlich/unheimlich de Freud. Trabalhei na tarde de sexta-feira (07/03/2014) na execução e edição das fotografias. A princípio, acreditei que o projeto não teria andamento por conta da baixa qualidade de imagem que meu equipamento fotográfico atual oferece. Lido com essa limitação técnica toda vez que desejo executar uma idéia, porém, o resultado foi surpreendentemente satisfatório e desenterrei aquela velha teoria de que o equipamento não se faz sozinho. Adoraria ter um equipamento melhor, lentes boas, toda a estrutura necessária para poder exercer minha função com mais segurança e comodidade, porém, essa não é a minha realidade atual e tento encontrar a melhor maneira de lidar com isso. Mas, no final das contas, correu tudo bem e o trabalho de pré-pós produção rendeu bons frutos. Não posso deixar de agradecer à Marina Melo, minha modelo de alguns anos e que topa todas as minhas loucuras, e também à Isadora Rodrigues, amiga e fiel escudeira que me serviu de assistente de produção nessa empreitada. Agradeço também Débora Souza, minha fotógrafa, amiga, irmã que cedeu gentilmente recursos que não me eram disponíveis no momento. Dados os devidos agradecimentos, cá está a obra:

MECHANICAL CERBERUS

MATER DOLOROSA

DOPPELGÄNGER  e  MEMENTO MORI
MEMENTO MORI II

VERTIGO

As fotografias foram feitas com luz natural e utilizando por vezes o auxílio de uma lâmpada. Durante o processo de edição decidi deixar todas as irregularidades do tecido de fundo como forma de texturizar a fotografia. Deixei também, em algumas fotografias, o encosto da cadeira na qual Marina se sentou. Não senti necessidade de tirá-lo e tampouco escondê-lo.
Além do Heimlich/Unheimlich, apropriei-me também da expressão latina Memento Mori ("lembra-te que irás morrer", presente na arte barroca que enfatiza a inevitabilidade da morte), Mater Dolorosa ("Stabat Mater Dolorosa", hino que se refere às dores de Maria na crucificação de Jesus e significa "a mãe permaneceu cheia de tristeza"), Vertigo ("Vertigem", tonturas, movimentos anormais e ou problema de origem psíquica, ou psico-física) e Doppelgänger (expressão originada da fusão das palavras alemãs doppel (significa duplo, réplica ou duplicata) e gänger (andante, ambulante ou aquele que vaga).


REFERÊNCIAS:
VIDLER, Anthony. Uma teoria sobre o estranhamente familiar (1990). In: NESBITT, Kate (Org.).
Uma nova agenda para a arquitetura: antologia teórica (1965-1995). São Paulo: Cosac Naify, 2006,
p.617-622.
FREUD, Sigmund. Obras Completas. Rio de Janeiro, Imago Ed., 1987.

12 comentários:

  1. Ficou incrível. Todas. Parabéns pelo trabalho. Tive a sensação de estar sendo observado, fiquei até com medo de olhar pra trás. :x

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  2. Caramba, depois de ler o seu conceito e ver as fotos é incrível ver como tudo se encaixe e se completa perfeitamente! Se você faz esse tipo de trabalho sem ter os equipamentos adequados, nem imagino o que vai sair quando os tiver. Fiquei encantada com as fotografias, elas expressam direitinho tudo aquilo que explicou no início do texto, está de parabéns!

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  3. Gente, eu não entendo nada de arte, mas acredito que você conseguiu captar toda a essencia daqueles conceitos em alemão ali de cima. Pergunta: Os olhos dela ficaram brancos por photoshop ou vcs usaram lente??? Cara isso ficou muito punk =) Beijão!

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    1. Oi Marcela, obrigada! :3 usamos lentes, tanto preta como branca.

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  4. Sempre que o post tem fotografias, eu dou uma espiada antes de ler o texto. pensei que você fosse indicar uma fotógrafa famosa que eu não conhecia e ia passar a adorar, pq de cara simpatizei com as imagens.
    Quando comecei a ler, meu amorzinho freus <3 já apareceu, me deixando mais apaixonada ainda. E no final, uma bomba: as fotos eram suas. Já pode tirar aquele "aspirante a" ali do perfil e deixar só o "fotógrafa". porque se você não fez arte aqui, não sei quem faz.
    Destaque especial para DOPPELGÄNGER e MECHANICAL CERBERUS, minhas favoritas. E os títulos das imagens... Ficaram da hora.

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  5. Não sei de quem estou com mais de inveja: de vc, por ser FODA em tudo o que faz, com esse talento do cacete e com o olhar ÚNICO que vc tem pra tudo, ou da Marina, que teve a SORTE de ser fotografada por você HAHAHA morram as duas.
    Eu ADOREI o título das imagens, PERFEITOS. Sofra, Larissa.
    Tinhamo, beezona.

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  6. Oi Larissa, achei super interessante a proposta fotográfica e toda a explicação que tu deu por trás da tua ideia. Confesso que ao começar a ler o post ainda não tinha compreendido sobre o que era, o que é ótimo, pois pude ser surpreendida.

    Me lembrei bastante de Supernatural, por causa dos olhos escuros e claros (:
    Seu trabalho é muito legal, parabéns.

    Sobre o equipamento, concordo com a teoria que diz que uma foto bem feita não depende só de equipamento, é preciso que a pessoa por trás também seja capaz, e tu, com toda certeza, és.

    Beijoo

    http://resenhandosonhos.com

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  7. Caramba, que massa! Achei incrível mesmo, parabéns. Sempre quis misturar esses conceitos da filosofia/psicologia com fotografia, e você fez um ótimo trabalho! :D
    Parabéns mesmo!
    Voltarei aqui mais vezes.
    Abraços.

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  8. UAU, que fotografias. E elas expõem o que as palavras que as descrevem significam. Me assustei um pouco com o olho quase leitoso, sem pupilas e íris. Realmente, essas fotografias tem algo de unheimlich.
    E isso prova também que não é só o equipamento que faz as fotos, mas também o olhar e a edição delas, os detalhes, a organização dos cenários... Parabéns! Estão ótimas!
    E logo tu terás oportunidade de adquirir equipamentos melhores, etc. É só lutar e ir atrás que conseguirás.

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  9. você diz que sua câmera te limita, mas olha isso; ficou ótimo. meio assustador. gostaria de saber se as garotas usaram lentes, ou se o efeito foi posto depois: na edição.

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    1. Oi Suzi! :3 é uma modelo só, e ela usou lentes sim :) na edição eu só ajustei pequenas coisas no fundo e fiz a montagem de duas fotos (na foto em que aparecem duas Marinas). O resto foi maquiagem e figurino mesmo. Beijo!

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Obrigada pelo comentário, espero que tenha gostado da postagem e volte sempre! :)