Ela tinha os cabelos levemente revoltos, cabelo de gente rebelde. Jogados para um dos lados displicentemente, emolduravam seu rosto com uma perfeição despreocupada, ganhando reflexos dourados com as luzes dos refletores do programa de televisão.
Antes da música iniciar, parecia calma e tinha um sorriso meigo entre os lábios. Só o sorriso, sem cigarros, sem batom.
Tinha também uma pequena cicatriz no nariz, que eu descobri depois ser de uma mordida de um cachorrinho vadio, um dos muitos que ela gostava de levar até a casa de Maricá, seu paraíso, para cuidar e alimentar. Pobrezinho, tão maltratado que mordera por instinto, assim mesmo, automático. Assim como ela, ele também atacava sem motivos, por já ter sido muito chutado em passados-não-tão-distantes. Mas sim, tinha uma cicatriz no nariz.
Ela sorria e olhava para baixo, enquanto o pianista começava a tocar e a música ia ganhando a densidade necessária, exatamente como um tiro na garganta.
O jogo de luz e sombra revelava o contorno dos cabelos e os traços precisos do rosto dela. Os olhos felinos, de esverdeado penetrante, estavam apaziguados naquele momento. A voz rouca, porém suave, entonou o início da canção. Eu adoro essa canção, é uma das minhas favoritas.
A câmera de filmagem então muda de ângulo e de perfil ela estica as mãos, gesticulando. A música flui nos gestos largos dela, agora mais alta, mais lancinante. O espectador, no caso eu, fica subjugado perante aquela voz. Não existe mais nada além dela, seu microfone, a penumbra e eu.
As letras borradas pela gravação antiga avisam que a performance fora filmada em cinco de novembro de mil novecentos e setenta e cinco.
A câmera a mostra mais distante, vestida de preto e muito expressiva. Sua voz agora é de uma agressividade penitente, uma súplica desesperada que inflama o ouvinte. Os olhos, desafiadores, ordenam: Não me deixe. Não ouse me deixar.
Ela termina, chorosa.
Visceral. Era essa a palavra que eu procurava para descrever Maysa.




E que texto mais intenso e perfeito pra descrever Maysa! Amei, claro <3 Vou ficar ouvindo Maysa agora *_*
ResponderExcluirBeijos ><
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Seu texto podia ter saído da própria Maysa, tamanha intensidade das palavras! Confesso que não ouço, mas a admiro muito. A maneira como ela canta é de doer o coração. </3
ResponderExcluirEu gosto muito dessa música, mas prefiro ela na voz da Maria Gadú, a voz rouca dela, dramatiza um pouco mais a música. Beijos
ResponderExcluirExatamente isso: visceral. A palavra perfeita pra descrever Maysa, e também pra descrever seu texto. Me senti perdida no olhar e na voz dela, junto com você, antes mesmo de dar o play no vídeo.
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