quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

I have a constant fear that something's always near...

Você alguma vez já esteve sozinho a noite, pensou que ouviu passos atrás de você e se virou e não havia ninguém lá?
Medo do escuro, medo do escuro...
Tenho medo constante de que algo esteja sempre perto... Tenho uma fobia de que alguém esteja sempre ali...
{Fear of the Dark - Iron Maiden}

cradlesin.deviantart.com
    Meu pai dirigia nosso carro quando saímos da casa da tia Beth. Era madrugada do dia 25 de Dezembro de 2001, e nós morávamos muito longe dali. A tia Beth ficou preocupada, mas meu pai explicou que não poderíamos dormir lá, pois ele tinha que trabalhar no dia seguinte e não poderia faltar. Na realidade, ele poderia simplesmente não ir, mas ele não tirava mais do que um dia de folga, nem em datas especiais. Sabe, meu pai sempre foi um workaholic, e admitia isso sem problemas. Não deixou nem que mamãe, Claire e eu ficássemos na casa da tia Beth naquela noite, para não ter que nos buscar depois. Mamãe não gostou da idéia de viajarmos de madrugada, mas não discutiu com meu pai para evitar aborrecimentos. Nos despedimos rapidamente dos meus tios e agradecemos os presentes.
O dia tinha sido ótimo e havíamos ganhado uma câmera digital novinha. Experimentamos tirando fotos a tarde toda, na floresta perto da casa da minha tia.
Claire e eu estávamos cansados e acabamos cochilando no carro. Na época ela tinha 6 e eu tinha 9 anos. Nossa hora de dormir já tinha passado há muito tempo. Mas por algum motivo, eu acordei durante o percurso.
Já estávamos longe da casa da minha tia, mas não sei precisar a distância. A estrada estava molhada e escura, não havia quase postes funcionando. Eu enxergava um ou outro, mas, na maioria das vezes, a única luz na estrada era a dos faróis do nosso carro. Não tinha nada que eu pudesse observar enquanto viajávamos. Claire ainda dormia e comecei a ficar entediado. Tentei olhar as fotos na câmera mas ela estava sem bateria, então coloquei de volta na minha mochila.
Minha mãe parecia aborrecida, ela e meu pai não conversavam. Acho que ela não ficou feliz por voltarmos. Não via meus tios e meus primos há muito tempo e queria ter ficado mais um pouco, pelo menos, até o amanhecer. Meu pai sempre estragava nossas festas em família por causa do trabalho. Nós não reclamávamos, mas a insatisfação de todos era perceptível.
De repente, eu olhei pelo vidro e, pouco a frente de nós, uma coisa estranha cruzava a estrada. Era como uma enorme sombra negra, esguia, com braços compridos que arrastavam longos e finos dedos pelo chão. Era alto demais para ser um homem, apesar de parecer um. Então o carro virou.

    Acordei de cabeça para baixo, sentindo uma enorme pressão no corpo todo. Os pedaços de vidro ainda caiam no chão, apesar de o carro não balançar mais. Cortei a mão em um deles quando tentei me mover. Meu corpo doía e eu estava atordoado, sem entender o que estava acontecendo.
Um barulho esquisito chegou aos meus ouvidos. Era como rádio fora de sintonia, como um chiado agudo e metálico. Demorei alguns minutos até entender o que estava acontecendo. Meus olhos se acostumaram com a escuridão e então eu pude ver. Meu pai estava para fora do carro, mas não podia vê-lo direito. Sua perna estava praticamente ao contrário. Uma onda elétrica percorreu meu corpo. Minha mãe tinha um caco de vidro enterrado na testa e seu cabelo estava empapado de sangue. Não havia movimento em seus corpos, nenhum deles respirava. Senti um terror incontrolável e náuseas. As lágrimas escorreram dos meus olhos instantaneamente. Olhei para o lado, do melhor modo que pude, em busca da minha irmãzinha, mas o que vi foi uma coisa terrível.
A criatura estava lá, e seus longos dedos, que mais pareciam tentáculos, puxavam minha irmã por entre ferros retorcidos do automóvel. Ela chorava baixinho e eu pude escutá-la sibilando meu nome enquanto se agarrava ao estofado do carro. Não tive tempo de tentar alcançar Claire, pois o ser estranho a pegara pelos cabelos e a arrastava pela estrada. Ele se movia de modo estranho, como um octópode, polvo, aranha, qualquer coisa assim. Minha irmã em pânico, começou a gritar, mas eu estava paralisado. Não conseguia pensar e nem me soltar do carro, meus membros não se moviam e em minha garganta havia um grito preso que eu não conseguia exteriorizar, mesmo com a boca completamente aberta. Estava em choque e imobilizado. Por entre as ferragens do automóvel e os cadáveres de meus pais eu pude vê-lo. Uma coisa, uma mancha negra e deformada, levando minha irmã embora. A silhueta do monstro levando minha irmã desapareceu da minha vista.
Desde aquela noite eu nunca mais a vi, mas, desde então, a criatura sempre esteve a me observar.


— Para onde vamos, mamãe?
— Para a casa da tia Beth, querido. — respondeu-me minha mãe com um tom amável. — Vamos passar o natal com seus tios e primos. Vocês vão se divertir. Tem uma floresta linda que é praticamente o quintal da casa dela.
— Mamãe, eu tive um sonho ruim. — Disse Claire, com uma voz manhosa.
— Que sonho?
— Eu sonhei com um monstro.
— E como era esse monstro? — perguntei.
— Era grande, tinha braços muito muito muito compridos, e ele era muito horrível, Josh! Ele não tinha rosto e não tinha olhos!
— Foi só um sonho, querida. Agora pegue seu casaco, seu pai está nos esperando no carro.


    Anos se passaram e ninguém nunca acreditou em mim. Meus familiares simplesmente diziam que, por causa do choque, minha mente tinha produzido essa história fantástica. Eles tinham explicação para tudo, menos para o desaparecimento do corpo da minha irmã. Evitavam falar sobre o assunto, principalmente na minha frente, e ignoravam o fato inexplicável do sumiço de Claire. Quando eu cheguei na casa da minha tia, depois do ocorrido, fiquei vários dias sem dizer uma palavra. As pessoas me olhavam com pena e assustadas. Me abraçavam e diziam que tudo ia passar. Outros, menos delicados, diziam o quão horrível tinha sido tudo e que era um milagre de Deus que eu estivesse vivo e bem. Bem? As pessoas não me enxergavam. Olhavam para mim, mas não me viam.
A criatura não deixara vestígios, e por longos e longos meses de investigação, nunca ninguém teve sequer uma pista do paradeiro de Claire. No lugar dela, foi enterrada uma pilha de pedras. Eu já não tinha esperanças de encontrá-la viva. Não acreditava mais em milagres de Deus. Não acreditava mais em Deus. Ele não criaria uma aberração como aquela que eu vi, que levou minha irmã e provavelmente a devorou. Eu parei de rezar para um Deus quando eu olhei para aquele demônio que arrastava minha irmã pelos cabelos. Eu parei de sentir fé quando eu me deparei com o terror que gelava minhas veias. Todas as noites eu acordava gritando, suando frio, com o corpo retorcido de pavor, sugado de um pesadelo com aquela coisa. Era terrível ter de conviver comigo mesmo sabendo que todos os que eu amava estavam mortos. Meus pais mortos no acidente, minha irmã levada por aquela coisa.
Depois de algum tempo, decidiram me internar. Eu não saia de casa, não tinha amigos. Passei a maior parte da minha vida aterrorizado com a simples idéia do homem esguio. Quando chegava a noite eu simplesmente entrava em pânico. Se alguém apagasse as luzes, eu gritava a plenos pulmões. Fui diagnosticado com um monte de coisas. Terror noturno, síndrome do pânico, stress pós-traumático... Mas nunca ninguém chegou perto da realidade inacreditável da minha paranóia. Eu podia sentir seus olhos (ou a ausência deles) em mim, e sabia que ele sempre me observava. Ele sempre estava à espreita, pronto para me arrebatar.
Muitas vezes eu o senti tão perto que podia sentir a leve brisa do movimento de seus dedos às minhas costas, esticando-se cada vez mais, tentando me alcançar. Eu atirei muitas coisas nele, gritei, tentei queimá-lo... Foi quando começaram a me sedar, porque eu me machucava e corria risco de acabar me matando. E mesmo sedado, eu sentia o cheiro da carniça e ouvia o ruído metálico que eu acreditava ser a sua "voz".
Hoje eu sei que ele vem me buscar, já se passaram 10 anos. Não estou com medo, estou apenas esperando, sozinho. A janela está aberta, lá fora faz muito frio, mas eu sei que ele virá. Sim, ele virá, de qualquer jeito, ele estará aqui.
Eu consegui uma arma, não vou deixá-lo me levar. Hoje eu tive coragem de olhar aquelas fotos do dia de natal. Por entre as árvores, camuflado entre os troncos e os pequenos arbustos, dá para ver o esguio à espreita de nós.
A propósito, ele chegou.
Adeus.

Não se sabe muito sobre sua origem, alguns dizem que ele é um extraterreste, outros dizem que ele é um homem amaldiçoado.
Sabe-se apenas que ele tem a necessidade de raptar crianças, e é visto bem antes do desaparecimento de uma ou várias.
 O Slender Man é descrito vestindo um terno preto, braços grandes que parecem tentáculos, lhe ajudam a assustar e capturar suas vítimas, pois estas ficam em estado hipnótico, totalmente impotentes em sua presença. As crianças costumam ter pesadelos com o homem esguio antes de seu desaparecimento. Para saber mais sobre o Slender Man, clique aqui.

8 comentários:

  1. O que é que eu posso comentar depois de um texto desses? Que eu tive que esperar até a manhã pra poder ler, porque sexta é dia de barulhos estranhos na vizinhança e eu fiquei com medo do que poderia começar a imaginar?
    Amei! Incrível que você me deixa com medo e eu ainda gosto... hahaha

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  2. Conto bem escrito e a temática me atraiu muito. Adoro esses finais dramáticos <3

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  3. Sim, ela nos deixa com medo.
    E esse texto é 100% Larissa: Do mal, e incrível.

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  4. Muito tri bee!!
    Fazia tempo que estava com saudades dos teus contos!! E esse, lendo agora na madrugada me deu até medo...sabe que em casa de madeira sempre tu escuta uns barulhos suspeitos! Hahahaha
    Gostei demais da inspiração e de como tu desenvolveu o conto; principalmente a parte que a menina sonhou com a criatura!
    Parabenzão, diva!! *-*

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  5. Adorei!
    Esperava um final diferente, feliz. Mas esqueci que é a Larissa que está escrevendo, huhu.
    Me surpreendeu ♥

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  6. Nossa que Horror.
    O Engraçado é que minha tia disse que já viu um desses. Ela tinha o costume de lavar a roupa de madrugada, E o casa dela ficava de frente pra rua sem asfalto.
    Enquanto esfregava as roupas, viu uma "coisa sem forma" bem longe, e quando percebeu era um bicho igual a descrição.
    Simplesmente ela correu pra dentro de casa, e nem tão cedo voltou a lavar roupa de madrugada.
    Sei lá, acredito só vendo rs

    Ótimo conto!

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  7. Simplesmente tenho pavor desse Slender Man! Meu irmão me colocou pra jogar o game dele, em que se procura as folhas de papel numa floresta, no escuro, e eu não aguentei nenhum minuto. Essas coisas meio alienígenas me apavoram de tal forma que nem sei explicar. E seu texto, sério, foi me arrepiando do começo ao fim! E isso é um elogio, geralmente não sinto medo com textos como esse, mas o seu me deu até calafrios. XD

    Feliz 2013!

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Obrigada pelo comentário, espero que tenha gostado da postagem e volte sempre! :)