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As Outras Pessoas caminhavam pela rua, conversando, outras passeavam com seus cachorros e com suas crianças. Uma ou outra bicicleta cruzava o meu campo de visão de tempos em tempos.
A janela entreaberta me dava o anonimato suficiente para que eu não fosse incomodada com olhares. Eu remexi a colher dentro da xícara de chá, fazendo o líquido vermelho girar. Era minha xícara favorita, com desenhos do signo de Aquário. Lembro de tê-la comprado num desses bazares de bairro. Ela vinha em uma caixinha linda com dizeres e desenhos que agora nada significavam para mim, mas de qualquer forma eu ainda achava interessante.
Beberiquei um pouco do chá, meu preferido também, e encarei a tela branca do computador.
O cursor de texto piscava impaciente, como que me pressionando a escrever algo. Ignorei isso e olhei novamente pela janela. Agora o céu estava fechado, a tarde ficou cinza de vez. Estava bom, eu gostava assim. Sempre gostei dos dias nublados e chuvosos.
A garoa fina começou a cair e salpicar o vidro da minha janela. As Outras Pessoas na rua também começaram a sumir na primeira chuva do inverno.
What the water gave me, era o nome da música que eu ouvia. A voz melodiosa e singular preenchia meus ouvidos, de forma que quase esqueci a tela nervosa do computador. O cursor ainda piscava, acusando o desleixo.
'Cause she's a crueller mistress and the bargain must be made. But oh, my love, don't forget me when I let the water take me...
O chá já havia esfriado, só restara um pouquinho no fundo da xícara. Eu sentia frio nos pés, e imaginei que lá fora, a garoa deveria estar gelada. Dentro estava gelado.
Olhei novamente para a tela do computador, e pensei com meus botões que era um dia demasiado difícil para escrever. Não sei meu bem, os pensamentos me fugiam. A verdade é que eu me tornei meio apática nesses últimos tempos. Nada me comove, nada me distrai.
É estranho quando você vence muita coisa, mas alguns dos seus sonhos são triturados no caminho. Eu me despi de algumas fantasias, e agora estou aqui enfurnada nesse quarto, olhando essa janela, e para quê? Para passar o tempo? Por um agradável desespero?
Lay me down, let the only sound be the overflow...
As Outras Pessoas foram embora.





Como eu me vi de uma certa forma em seu texto.
ResponderExcluir"Nada me comove, nada me distrai." - Exatamente eu, em alguns dias. Não sabendo escrever, por que não tenho sobre o quê escrever, não em relação a mim. E que bela música de inspiração do texto!
Beijos
"É estranho quando você vence muita coisa, mas alguns dos seus sonhos são triturados no caminho. " passo exatamente por isso, era tão cheia da planos fantasiosos e feliz e agora so me resta esperanças, mas que facilmente podem ser trituradas com as difculdades da vida.
ResponderExcluirBonito texto.
Como é tocante a sensibilidade de uma pessoa que está num momento onde nada é capaz de tocá-la.
ResponderExcluirTodos temos esses momentos que por muitas vezes se estendem além daquilo que gostaríamos, principalmente quando aquilo que nos para é algo que não podemos mudar, resolver por nossa próprias mãos. Isso me lembrou de uma música do U2: "Eu não tenho medo de nada neste mundo
Não há nada que você possa me dizer que eu não tenha ouvido antes
Eu só estou tentando achar uma melodia decente
Uma canção que eu possa cantar em minha companhia...Você se prendeu em um momento e agora você não pode sair dele".
Fantasias, muitas delas nos prendem, e talvez se libertando de alguma delas, tu consiga ver realmente o que tu queres, para o que tu foi destinada (eu acredito nessas coisitas aí), para os teus verdadeiros sonhos. "Os sábios têm sonhos grandes o bastante para não perdê-los de vista enquanto os perseguem" - Willian Faulkner.
E tu sabe que tu faz parte desse time, mana.
Ai, bee, tô assim também. Nada me distrai mais... Não consigo escrever uma palavra sequer, pensar numa coisa sequer. Como se meu mundo tivesse congelado em algum momento dormente da minha vida, sei lá :/
ResponderExcluirSeus textos são sempre magníficos e repletos de humanidade. AMO! AMO! AMO!
Quando comecei a ler, pensei que você tivesse tirado de algum lugar. Ficou lindo o texto.
ResponderExcluirEu estive meio apática nesses últimos tempos também. Engraçado que deu para imaginar as cenas que você descrevia nitidamente.
Voltei com o Quase Descolada, Lari!
Beijo. <3
Acho que a verdadeira morte não é a repentina, em que se parte deixando a vida inacabada...A verdadeira morte acontece quando deixamos de nos importar, de nos encantar e apenas esperar que o dia passe logo... A verdadeira morte acontece todos os dias quando não esperamos que a vida nos surpreenda, apenas que não nos decepcione. Quando vemos o navio partir e ficamos sentados, vendo ele passar.
ResponderExcluirQue seja doce, moça. Sempre. :*
Enquanto lia a melodia de Deja Vu da Pitty ficou martelando em minha cabeça, acho que há uma sintonia entre seu texto e a canção. Eu até havia comentando anteriormente que fico impressionado com sua maneira de escrever, e a cada novo texto, esse pensamento torna-se mais forte. Parabéns. "O cursor de texto piscava impaciente, como que me pressionando a escrever algo. Ignorei isso e olhei novamente pela janela. Agora o céu estava fechado, a tarde ficou cinza de vez. Estava bom, eu gostava assim. Sempre gostei dos dias nublados e chuvosos."
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