quarta-feira, 30 de maio de 2012

Eu deixo a onda me acertar...

Não estou desesperada, não mais do que sempre estive. Nothing special, baby. (Morangos Mofados - Caio Fernando Abreu)

www.missheroin.devian
O sofá de couro falso é macio, mas não encontro posição que me deixe confortável. Tudo me incomoda e não há nada que eu possa fazer para me distrair. Mudo almofadas, troco de lugar, mas não adianta. Talvez sejam as almofadas. Talvez o sofá. Ou talvez, só eu mesma. Levanto, vou até a cozinha, bebo um copo d'água, olho pela janela. Não sou das pessoas que gostam de café ou cigarros, para autodestruir-me prefiro o pensamento. Uma boa xícara de chá também cai bem.
O nariz arde, a gripe é forte. Do lado de fora o tempo está carregado, a chuva se aproxima e apesar de ser quase Junho, o ar é quente e abafado, quase sufocante. Há nuvens negras no céu e o dia ficou quase tão escuro quanto a noite. O barulho da tempestade é alto e os trovões ribombam por entre as nuvens, enviando flashes de luz aos que caminham pela calçada sem guarda-chuva. Lembro-me de quando pequena, diziam que esses sons eram provocados por Deus arrumando os móveis. Uma pena eu não acreditar em deuses e suas faxinas divinas. Parece alegre... Lúdico até, substituir as descargas elétricas por uma explicação infantil.

Mas a tempestade, como um cão que ladra sem morder, demora a chegar. Do lado de fora o tempo está carregado. Do lado de dentro também. Há tempestade aqui, haverá tempestade lá. Em ambos os casos, não há muito que fazer sobre isso, só deixar as coisas acontecerem naturalmente, sem interrupções, sem anestésicos. Deixar a tormenta vir, agressiva e violenta. Quem sabe a chuva limpe, purifique e exorcize essa coisa que não tem nome, ou que talvez eu não saiba mais nomear. Talvez seja só a velha angst dando as caras novamente, atrás de algo que ela possa perseguir ou destruir. Seek and destroy. Mas essa coisa, esse sentimento ou ausência dele, é tão familiar que quase me comove quando volta.

E no meio de tantos se e talvez, de tanta inquietação, nostalgia, solidão e impaciência, talvez uma boa chuva seja a solução de todos os problemas. De todos os sóis que sempre me deprimiram, de todo o tempo calorento que me deixa impotente.

Talvez só a chuva traga de volta aquilo que sequer perdi, mas que se escondeu em algum lugar misterioso para me deixar histérica à procura. E em vigília, com o rosto colado ao vidro embaçado da janela eu espero a chuva caia, quase como uma oração, como diria Humberto Gessinger: Que a chuva caia como uma luva, um dilúvio, um delírio... Que a chuva traga alívio imediato.

E no final das contas, não estou mais desesperada, não mais do que sempre estive.

6 comentários:

  1. Sempre que fico sabendo de um novo texto seu sendo postado aqui no blog, eu fico imaginando de que maneira você vai me surpreender. E você sempre faz um trabalho magistral, achei seu texto bem visual, o leitor consegue imaginar as cenas na mente como num filme ou num clipe. Sem contar que você ainda citou a minha canção favorita do Engenheiros. Meus parabéns pelo excelente trabalho, continue nos deliciando com seu talento. Beijos.

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  2. Sempre haverá tempestades aqui dentro de mim também, lendo seu texto, me identifiquei e muito com o eu-lírico, não estou tão desesperada, não tanto quanto o normal, sempre estive assim, só não tinha percebido isso antes, pensando que hoje está tudo diferente.

    Beijos
    Meu outro lado

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  3. Eu já te falei alguma vez que você escreve muito, muito, muito bem? É lindo o seu jeito de escrever. A sensibilidade que você passa através dos seus textos é fantástica. Realmente, transmitir uma mensagem e conseguir emocionar, tudo ao mesmo tempo, através de palavras apenas, é um talento enoorme!

    Parabéns. Lindo texto.
    Beijos!

    delicadissima.com

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  4. Que texto poderoso, sério. Pude imaginar cada aspecto de tudo o que você escreveu, uma moça a reorganizar pensamentos esperando a chuva cair. Muito bonito e forte, gostei muito! Estava com saudades daqui! Legal ter coisa nova, faz falta!
    Beijo!

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  5. Oie.
    Como sempre arrasando nos textos dos teus posts. As vezes me pergunto quando é só um texto e não o que tu realmente está sentindo...

    Bjs.

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  6. "Há tempestade aqui, haverá tempestade lá" Achei essa parte maravilhosa e essencial.

    Torço para o arco-íris. Bjbj! :*

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Obrigada pelo comentário, espero que tenha gostado da postagem e volte sempre! :)