segunda-feira, 30 de agosto de 2010
A te spiritus noster devoratur et nostra anima capitur.
Posted on segunda-feira, agosto 30, 2010 by Serket Hetyt
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Foi então que ele a viu.
A mulher loura sorria ao caminhar por entre os túmulos. Com um sorriso sapeca ela ia se embrenhando cada vez mais na negrura do cemitério. Andrew ainda estava atônito, não sabia se seguia, se ficava, não sabia nem o porquê de estar ali. Mas estava. Aquela mulher desconhecida exercia nele um fascínio proibido, algo perto do fascínio que as pessoas têm pela morte. Elas temem a morte, mas não evitam pensar nela, não evitam tentar desvendá-la, conhecê-la.
Não acreditava no que estava fazendo, mas o fazia. Ele estava escalando o muro do cemitério para ir atrás daquela mulher!
Alguma força maior o impele a pular aquele muro. A mulher o atrai como um imã. Ele finalmente se deixou levar pela atração, pelo jogo. Perdeu o juízo no momento em que decidiu encontrá-la em um lugar que desconhecia, e pular um muro de cemitério já não parecia mais tão improvável. Faria qualquer coisa para viver aquela magia que estava sentindo. Euforia, expectativa.
Quando ele finalmente adentrou a área entre os túmulos, não mais a via, apenas ouvia risinhos ecoando por todos os lados. Não sabia exatamente onde a mulher estava, pois ela parecia estar em todos os lugares ao mesmo tempo. De repente ele sentiu seu estômago revirar. Era um cheiro acre, cheiro de sangue e de bicho selvagem. Sentiu medo de olhar para trás. Sentiu tanto medo que caiu de joelhos novamente. Tentou imaginar que aquilo era apenas um medo irracional provocado por uma imaginação fértil e dezenas de histórias em quadrinhos com temática de horror que lia sempre que possível. Não conseguia olhar para nada, olhava para frente, os olhos movimentando-se a todo instante, sem focar em nada, enchendo-se de lágrimas. A lua lançava luz às costas da criatura, mostrando a Andrew sua silhueta medonha, estava pousada em cima de uma grande lápide. As asas do “bicho” farfalhavam de momento em momento. E então ela parou.
Andrew ainda não conseguia olhar para trás, mas parara de tremer e chorar. A criatura as suas costas mantinha-se calada, até que ele ouviu sua horrível voz.
Era uma mistura de duas vozes, a primeira e mais notável era áspera, aguda e asquerosa, como o grito de uma gralha, de uma ave negra de mau agouro. A que se fazia menos presente era a voz sensual de uma mulher.
− Sinto que devo apresentar-me, pois vejo que veio de tão longe somente para ver-me.
Andrew não disse nada, sua respiração estava rápida, quase ofegante.
− Olhe para mim.
Ele hesitou. Quis afastar os pensamentos, como se fazendo isso a criatura que lhe falava desaparecesse. Disse para si mesmo que aquele ser não existia, que era tudo fruto de sua imaginação, fruto da mente, que por estar em um cemitério seu cérebro o induzia a pensar em monstros, mortos vivos e demônios.
A criatura então esbravejou, dando-lhe a ordem.
− Olhe para mim, agora!
Andrew virou-se lentamente, olhando para o chão. Começou a olhar para a criatura de cima para baixo, começando pelas horríveis garras de ave de rapina. Era um monstro! A mulher loura que viu no bar estava por baixo daquele ser, mas já não era nem um pouco a mulher atraente que o convidara para aquela caminhada maldita. Tinha os olhos totalmente pretos, redondos e penetrantes, o cabelo emaranhado, espetado, grandes asas negras de penas fartas e o nariz que assemelhava-se ao bico de uma ave. Ela chegou perto de seu rosto e Andrew sentiu vontade de gritar.
− Você sabe quem eu sou, Andrew?
− É lógico que sei! Você é... Você é um monstro, e eu estou sonhando, é isso! - disse Andrew, nervoso.
− Não Andy... Tente de novo, eu sei que você consegue.
O silêncio no cemitério era absurdo. Os únicos sons que podiam ser detectados eram o da respiração nervosa de Andrew e o farfalhar de asas da mulher-criatura, que encolhia e esticava o pescoço, como se a cabeça quisesse pular para fora do corpo.
− Eu sou uma Harpia, Andrew. Meu nome é Ocípite, a rápida no vôo. Por isso cheguei aqui bem antes de você. Veja bem, eu atraí você para cá, Andy. Eu trouxe você para mim. É claro que eu sabia que você viria, é estúpido o bastante para rastejar de encontro à própria morte. Talvez esteja até gostando disso, talvez almejasse isso há muito tempo. Não que soubesse o que eu era e o que eu faria quando apanhasse você, mas nós dois sabemos que você pensa que não tem nada a perder. Não tem amor a nada nem a ninguém. Veja bem, eu conheço você. Atrair você para cá não foi nem um pouco difícil. Todos sabem que gostamos dos mortos, minhas irmãs e eu, mas há mortos que ainda caminham, esses mortos, assim como você, não sabem que estão mortos ou recusam-se a morrer. Eles andam por aí com suas tarefas monótonas, roubando o ar de quem realmente gosta e quer viver. Olhe para a sua esquerda. Estes eram iguais a você. Não deram valor à vida durante toda a medíocre existência mundana, mas antes de morrer choraram, imploraram misericórdia, obsecraram pela vida.
Andrew olhou para o lado e viu dois corpos nus amontoados. Eram dois homens mortos com a boca escancarada, uma feição de grito, desespero. A Harpia abriu novamente as enormes asas, fazendo um barulho que fez o homem tremer dos pés à cabeça.
− E então, Andrew? Você tem alguma coisa a dizer, algum testamento a deixar... Algum bilhete?
− Eu não tenho ninguém.
E essa foi a última frase dita por Andrew, e tão breve quanto um sussurro do vento ele estava jogado por cima dos dois outros corpos, com o rosto igual aos de seus companheiros. A Harpia ainda não satisfeita alçava vôo, em busca da última vítima da noite. Arrebataria mais algum pobre infeliz, para satisfazer seu desejo eternamente insaciável e então iria de encontro à suas irmãs.
Nota: Representadas ora como mulheres sedutoras, ora como horríveis monstros, as Harpias traduzem as paixões obsessivas bem como o remorso que se segue a sua satisfação. Na mitologia grega, as Harpias (do grego hárpyia, "arrebatadora") eram filhas de Taumas e Electra. Procuravam sempre raptar o corpo dos mortos, para usufruir de seu amor. Por isso, aparecem sempre representadas nos túmulos, como se estivessem à espera do morto, sobretudo quando jovem, para arrebatá-lo. Parcelas diabólicas das energias cósmicas representam a provocação dos vícios e das maldades, e só podem ser afugentadas pelo sopro do espírito. A princípio duas: Aelo (a borrasca) e Ocípite (a rápida no vôo). Passaram depois a três com Celeno (a obscura).
Texto: Larissa Ventura Imagem: www.roman89.deviantart.com
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A maneira como você escreve nos faz ir num mundo diferente e cheio de trevas.
ResponderExcluirNão conheço muito a respeito das Harpias, mas vou pesquisar sobre elas!
Magnífico conto, Larissa!
Foda!
ResponderExcluirMais um!
=D
Parabéns amiga agora começo a ver a sua essência no que escreve...tenho certeza que o blog será um sucesso, o conto ficou incrível...Que sorte a nossa poder ter o privilégio de ler o que vc escreve ...abraços, e sorte, na torcida sempre..
ResponderExcluirJaque
O que eu acho mais interessante é o fato de você colocar alguns versos de músicas no conto. Dá um toque especial à leitura, gosto bastante!
ResponderExcluirExcelente garota!!! Vai longe!!
ResponderExcluirSensacional o conto! parabéns!
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